Talvez eu esteja atrasado para fazer aportes em empresas de geração de energia, pois faz algum tempo que o país já se encontra em uma crise hídrica, e que por isso o mercado já tenha precificado as empresas geradoras. O motivo da presente postagem, no entanto, é verificar se ainda podem ser vislumbradas boas oportunidades de aportes.
Em que pese a questão da crise hídrica, considerando que tenho posições em empresas de transmissão de energia, elas não se encontram com preços atraentes, pois não foram afetadas, devido ao fato de terem seus resultados operacionais não dependentes da quantidade de energia transmitida, e sim com base na disponibilidade, a partir da qual há descontos na Receita Anual Permitida (RAP) em caso de descontinuidade. Além disso, os seus contratos de concessão são reajustados pelo IGP-M, que acaba por proteger os lucros dos efeitos da inflação.
Dessa forma, o momento parece mais oportuno para aportes nos setores de geração e distribuição, considerando que seus lucros operacionais dependem da quantidade de energia, que, por sua vez, depende dos níveis dos reservatórios e da demanda de energia elétrica, que são influenciados diretamente pela crise hídrica.
Dentre as principais empresas de geração/distribuição de energia elétrica na bolsa das quais tenho conhecimento, posso citar AESB3, ENGI3, ENBR3, NEOE3, CMIG4.
Começando pela AESB3 (AES Brasil), de cara o primeiro ponto positivo é que se trata de uma empresa cujo controlador não é o Estado, o que costuma ser um fato positivo na análise de uma empresa, pois interferências políticas acabam por atrapalhar a governança. Essa questão da gerência política não deve ser levada de forma absoluta, pois há empresas que atendem aos critérios da estratégia previdenciária e que são estatais, como o Banco do Brasil, por exemplo.
Com base no Release 1T21 de AESB3, observa-se o impacto da crise hídrica na produção de energia elétrica a partir de fontes hídricas, que teve um impacto em -22,1%. Não obstante a redução da fonte hídrica, o EBITDA trimestral 1T20 vs. 1T21 teve um aumento de 11,6%, principalmente devido aos resultados da geração de energia eólica. Isso mostra que a empresa está cada vez menos dependente de fontes hídricas para geração de energia, o que acaba por ser algo positivo em relação às crises hídricas. Além disso, as fontes eólica e solar são consideradas fontes limpas e de menor impacto ambiental, o que acaba por ser relevante na análise, do ponto de vista de sustentabilidade. O índice de alavancagem, dado por Dívida Líquida/EBITDA, se encontra em 2,07x, o que é considerado saudável para a estratégia previdenciária. Ainda com a dívida controlada, a empresa foi capaz de investir em ativos para geração de energia eólica, incluindo contrato de longo prazo, o que irão aumentar a receita. Da mesma forma, o cronograma de amortização da dívida da empresa se mostra controlado até 2030, sendo o CDI e o IPCA os principais indexadores.
Pela evolução do portfólio de energia contratada, em 2025 vê-se que, até o momento, apenas 49% não está mais disponível, ou seja, a empresa deve envidar esforços para vender essa energia, sob o risco de diminuição do EBITDA. Até 2023 o percentual está crescente, a partir daí é que há o risco.
A companhia prevê até 2025 um capex de 2,4 bilhões para construção de complexos eólicos e manutenção dos ativos, o que corresponderá a um acréscimo de 211 MW no portfólio total da empresa.
A diminuição das chuvas impactou o fluxo de caixa da empresa, que precisou realizar a compra de 84% a mais de energia para honrar seus contratos, em comparação a 1T20.
No geral, a empresa parece possuir uma boa operação e gestão diante da crise, ao mostrar investimentos fortes na geração eólica. Possui também bons indicadores e dívidas e portfólio de energia contratada até 2024. Devemos acompanhar a venda dessa energia para que ela seja capaz de continuar gerando lucro operacional.
O próprio histórico da empresa mostra um lucro líquido estável desde 2016, com crescimento a partir de 2019.
Agora em análise ao histórico de distribuição de proventos, desde 2006 a empresa não falhou uma única vez em pagar dividendos aos acionistas, e com payouts em sua maioria absoluta maiores que 100%. A empresa possui boa regularidade anual de data com, aproximadamente nos meses de abril/maio, agosto, novembro e dezembro. Esse mês já realizei alguns aportes singelos buscando os dividendos do mês de agosto.
Na média dos últimos 3 anos, a empresa teve um lucro líquido de 337 milhões e um payout de 107%. Ao se considerar um aumento do lucro líquido em pelo menos 5%, devido à conclusão da compra de 2 complexos eólicos já em operação em 30 de abril, e considerando que o payout de 2020 foi fortemente afetado pela pandemia, sendo que normalmente é superior a 100%, projeta-se um lucro líquido em 2021 de R$ 336 milhões (portanto um LPA de R$ 0,84) e um payout de 107% (média dos últimos 3 anos). Nesses parâmetros, temos um preço-teto de R$ 15,01, o que parece ser uma projeção bem conservadora. No 1T21 tivemos um primeiro pagamento de dividendos com payout de apenas 73%. Caso permaneça esse percentual no pagamento previsto em agosto, o preço-teto deverá ser revisto, pois a projeção não será respeitada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário