Para saber se vale à pena investir em qualquer empresa com foco em dividendos, devemos nos lembrar do lema da estratégia previdenciária:
"Comprar boas empresas, que pagam bons dividendos, a um bom preço"
Para saber se o Banco do Brasil é uma boa opção de investimento, vamos analisá-lo sob a ótica do lema, parte a parte.
"... a um bom preço"
Começando pelo final, há uma postagem recente na qual afirmo que o Banco do Brasil é, dentre as empresas que analisei, a que possui a melhor cotação se comparada ao seu preço-teto, conforme método também comentado em outra postagem.
Considerando um lucro projetado para o ano de 2021 de R$ 20,5 bilhões, e que o percentual mínimo em dividendos que aceitamos receber é de 6%, chegamos a um preço-teto de R$ 47,70. Como hoje a cotação de BBAS3 é R$ 30,15, vemos que de fato está em um bom preço.
"... que pagam bons dividendos..."
Nesta parte do lema, podemos analisá-la sob algumas perspectivas. A primeira, e consequência da parte "a um bom preço", é que, quanto menor a cotação em relação ao preço-teto, maior será o retorno em forma de dividendos que receberemos. Assim, na cotação atual de BBAS3, certamente receberíamos dividendos superiores a 6%.
Com os números citados acima, esse lucro projetado dividido pelo total de ações da empresa diz que o lucro por ação é de R$ 7,15. Conforme algumas pesquisas e também verificado no site de RI do BB, o percentual do lucro que é destinado para pagamento de remuneração aos acionistas está hoje em cerca de 40%. Assim, sabemos que o dividendo projetado por ação do BB é de R$ 2,86, o que é equivalente a um yield on cost de 9,49% nas cotações atuais, margem esta muito acima dos 6%. O yield on cost é o percentual de retorno em forma de remuneração com base no preço médio de compra dos papéis.
A segunda perspectiva é sobre se de fato a empresa tem realizado a distribuição de lucros aos acionistas nos valores esperados e também na periodicidade esperada. Conforme podemos verificar no site de relacionamento com investidores do Banco do Brasil, a instituição costuma anunciar 4 vezes ao ano distribuição de lucro aos acionistas, o que é uma excelente frequência em se falando de renda recorrente com dividendos. Pelo menos desde 2014, que foi o ano que comecei a analisar, o Banco não falhou uma vez sequer em cumprir essa frequência de dividendos. Uma outra grande vantagem do BB é que, muito rapidamente após a data com, o dividendo já é pago. Há outras empresas que demoram até um ano para pagar os dividendos anunciados. Isso acaba pesando negativamente, uma vez que os boletos são pagos com dividendos.
Os indicadores de dividend yield de alguns sites para o Banco do Brasil tem mostrado que estão sendo pagos dividendos superiores a 6%, senão vejamos:
- Status Invest: 6,66%;
- Google Finance: 6,45%;
- Suno: 6,66%.
Com isso, podemos concluir que o Banco do Brasil também atende à parte do lema que diz que devemos comprar empresas que pagam bons dividendos.
"Comprar boas empresas"
Essa é a parte do lema que eu considero como a mais subjetiva. De fato a caracterização como boa empresa depende de pessoa para pessoa. Aqui, demonstrarei como eu analiso se uma empresa é boa ou não.
O primeiro critério não é diretamente relacionado à empresa, mas sim ao setor em que ela atua. No meu atual portfólio, estou me restringindo apenas às empresas dos setores perenes, os BEST (bancos, elétricas, saneamento, seguradoras e telecomunicações). No caso do Banco do Brasil, obviamente se encontra no setor bancário.
Uma outra forma de se avaliar o desempenho da empresa é por meio dos indicadores fundamentalistas. No caso, você deve fazer a avaliação primordialmente comparando com empresas semelhantes do mesmo setor, pois esses indicadores isoladamente não possuem muito significado. Há vários sites que realizam comparação colocando indicadores de empresas lado a lado.
Em geral, eu gosto de avaliar indicadores como as margens bruta e líquida, ROE, CAGR 5 anos, Dívida líquida/EBITDA para saber aspectos relativos à gestão da empresa; e os indicadores P/L e P/VPA para analisar aspectos relativos ao preço dos papéis.
Vejamos por exemplo os indicadores de gestão para os quatro maiores bancos, conforme comparação realizada no site iValor:
O Banco do Brasil apresenta, no momento, elevadas margens bruta e líquida (que têm relação com o faturamento e a capacidade de gerar lucro líquido, respectivamente) e indicam que a empresa possui maior competitividade no mercado.
Já o ROE é muito importante para avaliar se a empresa tem dado retorno em forma de lucro líquido aos acionistas. Apesar de o Banco do Brasil apresentar o menor ROE, na estratégia previdenciária usualmente se considera que empresas com ROE superior a 10% estão num patamar razoável para possíveis investimentos.
O CAGR 5 anos é a taxa com que o lucro líquido anual costuma subir ano a ano (no caso, num intervalo de 5 anos). O fato de estar com valor positivo significa dizer que a empresa tem apresentado resultados consistentes e crescentes de lucro, em outras palavras, que vem sendo bem gerida. Esse indicador é muito importante para o longo prazo, pois além de querer receber bons dividendos de uma empresa, também queremos que ela seja cada vez mais capaz de aumentar o lucro líquido que irá distribuir.
O indicador Dívida líquida/EBITDA é um valor que diz o quão endividada uma empresa está. Para nossa estratégia, esse valor acima de 4x demanda atenção. Uma empresa descontroladamente endividada tem uma chance maior de vir a falência e, no longo prazo, isso é algo que ameaça nossa estratégia. Para o setor bancário, o indicador EBITDA não é utilizado, pois é uma medida de lucro operacional da empresa descontados os impostos, as taxas, depreciações e amortizações, porém o resultado operacional dos bancos depende fortemente das taxas de juros, uma vez que uma das principais fontes de faturamento são as operações de crédito. Para saber o nível de endividamento dos bancos, o indicador utilizado é o índice de Basileia, que é uma indicação do capital que o banco precisa ter para dar lastro às suas operações de crédito de forma sustentável. Hoje, o índice mínimo exigido é de 8%. Quanto maior esse índice, mais segurança haverá para suas operações de crédito. Porém um número muito elevado (maior que 18 ou 20%) pode indicar que o banco não está gerindo adequadamente seus recursos. Hoje, o índice de Basileia do BB está próximo de 20%, o que indica que muito provavelmente o Banco irá distribuir maior remuneração aos acionistas no ano que vem, para diminuir o índice, otimizando o seu capital.
Essa foi uma análise quantitativa dos indicadores fundamentalistas relativos à boa gestão da empresa, porém falaremos de uma análise qualitativa, analisando sim o cerne da instituição.
Saber se a empresa possui bons indicadores fundamentalistas é, digamos, um passo, no entanto devemos nos lembrar que, ao comprar ações, estamos virando sócios, então é essencial conhecer a empresa: como ela opera, quais produtos ou serviços ela oferece, como lucra, quais suas principais políticas, etc. O primeiro passo para isso é cadastrar-se no mailing do site de relacionamento com investidores daquela empresa. Esse site também servirá como guia para você a partir do momento que decide estudar uma determinada empresa.
Os principais documentos para conhecer a empresa são as divulgações/apresentações de resultados e os formulários de referência.
Na divulgação de resultados do 1T21, o BB divulgou uma projeção de lucro ajustado para o ano de R$ 16 a 19 bilhões. No trimestre seguinte de 2T21, o banco revisou essa projeção para R$ 17 a 20 bilhões. Recentemente na divulgação de 3T21, a projeção foi novamente revisada para R$ 19 a 21 bi. Todas essas revisões ascendentes mostram o otimismo com as operações do BB, com resultados sólidos e crescentes de lucro líquido. Vejamos o gráfico do lucro líquido do BB nos últimos períodos:
Vemos que, desde 2016, os resultados são sólidos e crescentes, e a crise sanitária da covid-19 abalou em 2020 o lucro líquido do Banco do Brasil, porém de forma que em 2021 os lucros já estão retornando aos patamares pré-pandemia. Essa resiliência é fundamental quando se pensa no longo prazo, pois as empresas para a carteira previdenciárias devem sobreviver às crises pelas quais passamos.
Um outro ponto que podemos analisar que mostra a boa gestão da empresa é por meio das despesas administrativas. Como sendo uma despesa que corrói o lucro, obviamente queremos que elas sejam mantidas ou até mesmo reduzidas com o passar do tempo. Usualmente se considera que as despesas administrativas estão controladas caso seu crescimento seja inferior ao índice inflacionário. A exemplo do que ocorreu no 3T21 para o BB, houve um acréscimo de 0,7% nas despesas administrativas em comparação com o trimestre anterior, percentual este muito inferior à inflação no período, o que mostra que gastos com despesas administrativas estão bem controlados pelo BB, reflexo de boa gestão.
Um ponto interessante que vale a pena considerar é a ameaça das fintechs aos grandes bancos. Empresas como, por exemplo, o Nubank oferecem serviços digitais relativos a contas digitais com taxas menores ou inexistentes, se comparadas aos grandes bancos. Grandes atrativos dessas empresas para captar clientes foram cartões de crédito com anuidade zero e investimento automático a uma porcentagem do CDI, bastando ao cliente deixar o dinheiro na conta. Todas essas facilidades foram aliadas, ainda, a aplicativos de celular que dispensam totalmente a presença da pessoas em agências e filas grandes.
Com isso, houve uma grande necessidade de adaptação dos grandes bancos frente a essa ameaça das fintechs, e, apesar de maiores dificuldades de adaptação por parte das instituições maiores, o Banco do Brasil tem encarado essas mudanças. A exemplo do app do BB, com nota 4,6 na Play Store, a partir do aplicativo é possível resolver quase tudo em questões relativas à conta bancária. Os investimentos na parte digital são necessários para fazer face aos avanços do mundo moderno, e podem inclusive diminuir custos operacionais relativos a uma grande quantidade de agências físicas. Podemos ver que, desde setembro de 2020, o BB reduziu em 9% sua quantidade de agências físicas.
Hoje, o BB é o banco que possui a maior carteira de crédito para o agronegócio, e é possível ver que a cada apresentação de resultados a carteira continua crescendo. Mesmo quando considerados outros negócios da carteira de crédito, como pessoa física, microcrédito para pequenas empresas e inclusive grandes empresas e governo, todas os resultados são crescentes. A carteira ampliada cresceu 11,4% no último ano (set/20 a set/21). Tal resultado é, claro, decorrente da retomada da economia desde a crise ocasionada pela covid-19, porém também reflete as ações do Banco.
Esses foram os principais fatores que eu utilizei para verificar se o BB possui boa gestão. Uma outra análise que pode se fazer é comparar essas características com outros bancos.
Quanto mais soubermos sobre as atividades das empresas nas quais investimos, mais seguros ficaremos com nossas ações, mesmo em momentos de crise.



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